Histórias da História


Henrique Amaro, porventura, o bombeiro mais antigo de Portugal
UMA LIÇÃO DE VIDA... E DE HISTÓRIA!



Texto: Luís Miguel Baptista

Em 2006, no âmbito da passagem dos 75 anos da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (ABVAC), tive o privilégio de participar, por convite do então presidente da Direcção, Jaime da Mata, em dois números do boletim informativo daquela instituição, alusivos à efeméride. Decidi, na altura, em termos de conteúdo, concorrer com alguns subsídios para a história da ABVAC, recolhendo as memórias de uma personalidade credora do maior respeito e admiração: o 2.º comandante do Quadro de Honra, Henrique Amaro, um exemplo de vida e de história viva. Porventura, estaremos na presença do bombeiro mais antigo de Portugal, com cerca de 100 anos de idade, facto que justifica, só por si, a transcrição de várias passagens de uma vivência pontificada pela permanente dádiva aos outros. De igual modo publicamos fotografias cedidas pelo biografado, ao autor do texto, para fins ilustrativos.


Henrique Amaro, 2.º comandante do Quadro de Honra dos BVAC, é o único representante vivo da mais antiga geração de bombeiros de ontem e de sempre, podendo regozijar-se do facto de ter ainda conhecido a maioria dos fundadores da Associação, incluindo o seu primeiro comandante, Carlos Charbel Girardin.
Alistou-se no Corpo de Bombeiros em 1941, como aspirante, quatro anos após a fixação de residência no então lugar de Agualva. Antes, fora bombeiro de 3.ª classe nos Voluntários de Campo de Ourique, situação ignorada no processo de alistamento, vendo-se obrigado a frequentar a escola de recrutas.
A adesão aos BVAC ficou a dever-se à influência do farmacêutico Leopoldo Soromenho Barbosa, na altura presidente da Direcção, que ao saber da faceta de Henrique Amaro como bombeiro, em Lisboa, nunca mais desistiu de o desafiar para pertencer à corporação local, então comandada pelo benemérito Jorge Antunes dos Santos.
Hoje, aos 95 anos de idade, com uma lucidez admirável, recorda que não teve coragem para recusar o desafio. Manteve-se no activo durante cerca de 30 anos. Em 1965, foi nomeado 2.º comandante do Corpo de Bombeiros, completando o quadro de comando, até então apenas preenchido por Artur Lage, comandante, e Joaquim Barreira de Almeida, ajudante de comando. Cinco anos depois, passou, a seu pedido, ao antigo Quadro Honorário. Entretanto, no período de 1968 a 1970, exerceu, em duas fases distintas, a função de comandante interino.



Ao PBX dos BV Campo de Ourique. E, nos BV Agualva-Cacém, como porta-estandarte


Memória viva

As memórias de Henrique Amaro têm dupla relevância. Por um lado, traduzem as virtualidades do voluntariado de outrora e, por outro, constituem uma afirmação de que a história dos BVAC não se esgota na luta contra o fogo ou na prestação do socorro a feridos e doentes. São, também, um precioso auxílio à compreensão das transformações sofridas nos meios físico e social de Agualva-Cacém.
Quando Henrique Amaro entrou para as fileiras do Corpo de Bombeiros, Agualva e Cacém eram lugares eminentemente rurais e de veraneio para as famílias de Lisboa. Mais do que hoje, ser bombeiro constituía uma actividade nobre e na qual a juventude se sentia realizada, perante a ausência de atractivos.
O quartel-sede dos BVAC, instalado no Largo da República, mais precisamente na área hoje ocupada pelo edifício de habitação que acolhe a Churrasqueira Solar de Agualva, era um local privilegiado nas relações e no desenvolvimento comunitário, inspirado pelos valores humanistas da solidariedade, da fraternidade, da entreajuda, do respeito pelo outro, da tolerância, do companheirismo e do convívio.
O Corpo de Bombeiros tinha pouco mais de 20 elementos e dispunha de dois pronto-socorros, uma ambulância e uma bomba braçal. Com este equipamento servia uma população inferior a 3 mil habitantes.
Nesse tempo, o risco de incêndio em habitações era praticamente nulo, quer pela inexistência de edifícios de grande altura, quer pelas próprias características dos respectivos recheios, os quais não reuniam a perigosidade dos dias de hoje. Porém, o Corpo de Bombeiros procurava estar apto para enfrentar qualquer tipo de adversidade. A instrução, por norma dada aos domingos, mas também à noite, especialmente na época de Verão, consistia, sobretudo, no arvoramento de escadas de molas e de gancho, utilizando-se para o efeito, entre outros edifícios existentes em Agualva, a fachada da capela de Nossa Senhora da Consolação. Só mais tarde foi construído, por pessoal voluntário, nas traseiras do antigo quartel, um esqueleto de madeira equivalente a dois andares, que servia de casa-escola.


Perspectiva de Agualva-Cacém nos anos 50


Tempos difíceis

Os incêndios em mato e floresta eram os mais frequentes nos serviços prestados pelos BVAC, nomeadamente, nas encostas da Serra de Colaride e do Casal do Cotão e, ainda, no Pinhal da Francesa, actual freguesia de Mira Sintra.
Henrique Amaro recorda quanto era difícil e exigente, em termos de esforço físico, o combate aos incêndios florestais. Os veículos não dispunham de depósitos de água, pelo que o pessoal combatente recorria, com frequência, à técnica de contrafogo. As chamas eram batidas com ramos de árvores e estas, quando necessário, eram cortadas com machados. Não existiam batedores e muito menos moto-serras.
Ao nível do serviço de saúde, as condições de trabalho do passado suscitam igualmente interesse e atestam como hoje se encontra facilitado o exercício da actividade de bombeiro. Por exemplo, nos anos 40, numa fase em que a única ambulância ao serviço esteve impedida de circular, devido a desgaste mecânico, o transporte de doentes e sinistrados era feito na parte traseira de um dos pronto-socorros, sendo a vítima acomodada numa maca de padiola.
O antigo comandante retém, de igual modo, na memória, os cenários dramáticos vividos nas cíclicas inundações no Cacém-de-Baixo, em 1953 e 1967, bem como numa explosão na Fábrica de Pólvora de Barcarena, onde participou no resgate de alguns operários já cadáveres. Não menos marcante foi a sua participação nas operações de socorro do trágico acidente ferroviário no Algueirão, em 1965, retirando entre os destroços de ferro vários passageiros estropiados.


Enquanto chefe dos BVAC (ao centro, de blusão), junto de valorosos bombeiros


Voluntariado zeloso

A par da sua intervenção nos sinistros, recorda, com emoção, o contributo dado pelos voluntários em suprir necessidades do Corpo de Bombeiros, nos períodos difíceis enfrentados pela Associação. No seu caso, foi durante vários anos responsável pela conservação das mangueiras, que ao tempo eram fabricadas em lona e, como tal, tinham maior probabilidade de se danificarem. A fim de evitar despesas à Associação na aquisição de novas mangueiras, obteve uma máquina para remendagem, solucionando, com êxito, vários problemas.
Cooperante em muitas acções, ocupou-se, ainda, com a construção de material de incêndio, tal como agulhetas com válvula e bombinhas de mão, precursoras dos extintores.
Mais tarde, quando assumiu, interinamente, a função de comandante, procurou introduzir inovações no domínio do equipamento, em correspondência aos primeiros sinais da transformação de Agualva-Cacém num meio de características urbanas. É disso exemplo a entrada ao serviço do primeiro auto-tanque, cedido pela antiga companhia petrolífera SACOR, equipado com bomba acoplada ao motor e mangueiras rígidas, a aquisição do primeiro pronto-socorro ligeiro todo-o-terreno, marca GMC, subsidiado pela ex-Inspecção de Incêndios da Zona Sul, e a dotação de uma manga de salvação.


Integrado numa representação dos BVAC (primeiro da esquerda)


Uma vida cheia

Bombeiro multifacetado, Henrique Amaro dá-se por satisfeito e classifica a sua prestação nos BVAC como "uma vida cheia". Na verdade, fez de tudo um pouco, em resultado de residir perto do quartel e por dispor de uma linha telefónica privativa do Corpo de Bombeiros, extensível às casas de outros voluntários, através da qual era chamado de noite para acorrer a incêndios ou prestar assistência a doentes e sinistrados. Por isso, diz que era "um dos bombeiros da noite" e realça a existência da referida linha telefónica como um meio avançado para a época, pois, evitava, de madrugada, o lançamento de morteiros, dado ainda não existir sirene para a mobilização de pessoal.
Conjuntamente com Artur Lage, participou na instrução do pessoal do Corpo Activo, a convite do comandante António Gomes Fragoso, e assegurou inúmeros piquetes no antigo Cacém Cinema, para as instalações do qual se deslocava a pé, transportando consigo um extintor.
Todo o tempo que tinha disponível era dedicado aos Bombeiros, mesmo por ocasião das suas férias laborais.
Voluntário por opção e missão representou os BVAC, a suas expensas, em diferentes eventos dos bombeiros portugueses, na companhia do ajudante de comando Joaquim Barreira de Almeida, facto que denota a elevada dimensão de sacrifício, dedicação e competência das antigas gerações para que o nome de Agualva-Cacém fosse dignificado e não passasse despercebido no todo nacional.
Estas são, entre muitas, as memórias – os exemplos de dignidade humana, moral e cívica – do comandante Henrique Amaro, uma lição de vida… e de história, sob a divisa "Servir".


Na inauguração de uma viatura que recebeu o seu nome (homenagem da Direcção da ABVAC - mandato de 2007)

Pela Imprensa

OS CLICHÉS DA ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA


Pesquisa documental: Pedro Macieira



(clique em cima das imagens)



"Um dos mais importantes repositórios de informação sobre a sociedade portuguesa", assim se refere fonte da Hemeroteca Municipal de Lisboa à Ilustração Portuguesa, opinião da qual comungamos e transcrevemos para contextualizar as imagens da presente postagem, recolhidas pelo nosso colaborador Pedro Macieira.
Na verdade e no que diz respeito aos bombeiros portugueses, encontramos nas páginas de tal publicação periódica muita e útil informação à produção historiográfica.
Saliente-se, portanto, os clichés alusivos a grandes sinistros, a actos festivos dos corpos de bombeiros voluntários e/ou municipais da cidade de Lisboa, bem como à sua integração em manifestações públicas nacionais.
Na primeira página postada, que se reporta a 14 de Outubro de 1912, identificamos, numa parada, realizada em Lisboa, decerto, de homenagem à República Portuguesa, a participação de um veículo pronto-socorro dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, seguido de pessoal do Corpo Activo, e ainda, noutro registo, de vários elementos a puxarem dois carros de tracção braçal. Quanto a estes, e pese embora a legenda da fotografia refira "material dos bombeiros voluntários na Avenida", parece-nos não estar correcta a informação, a avaliar pelas características do fardamento dos intervenientes. Supõe-se, antes, estarmos na presença de condutores dos Bombeiros Municipais de Lisboa, que tinham a seu cargo o transporte e manuseamento do material de combate a incêndios.
Relativamente à segunda página, datada de 8 de Julho de 1912, que documenta a intervenção dos Bombeiros Municipais de Lisboa e de populares num incêndio, chamamos a atenção para o requinte gráfico da mesma, nomeadamente o pormenor da ilustração utilizada como cercadura alusiva à temática dos bombeiros, constituída por mangueiras e agulhetas. Mas também para o trabalho penoso dos bombeiros, a começar pela escassez de água como agente extintor,
conforme faz presumir o reduzido número de agulhetas empregues no combate ao fogo, o que motivou, cremos bem, o recurso a operações de maior envergadura e concertação.
Registe-se ainda a importância da Ilustração Portuguesa num tempo em que a fotografia não se encontrava generalizada entre os demais órgãos de imprensa, oferecendo por isso uma dimensão diferente e mais completa dos acontecimentos. Este aspecto, que então se revestiu de novidade na cobertura noticiosa e junto do público, permite-nos, actualmente, do ponto de vista da interpretação histórica, fazer uma análise mais realista dos factos em estudo e, por consequência, obter um levantamento iconográfico de maior pormenor.

Histórias da História


Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada
"A DISCIPLINA DE HOJE É HERDEIRA DO DESEJO
DOS FUNDADORES DA CORPORAÇÃO"


Por ocasião da comemoração dos 130 anos da fundação da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada, em Agosto último, o Dr. Carlos Melo Bento, prestigiada figura dos Açores, ex-presidente da instituição, foi convidado a usar da palavra, proferindo um interessante discurso que consubstancia, a nosso ver, uma verdadeira lição de história sobre uma das mais antigas organizações dos bombeiros portugueses.
Despertados para o facto por um dos nossos seguidores, transcrevemos, pois, com a devida vénia, parte do referido discurso.



O Dr. Carlos Melo Bento proferindo o seu discurso, na sessão comemorativa dos BV Ponta Delgada



Temos então que a nossa Associação faz anos hoje. Centro e trinta, rezam as crónicas, quando talvez precisamente nesta mesma sala reuniu pela vez primeira a Assembleia-geral da nossa Associação Humanitária presidida pelo Barão da Fonte Bela, ao tempo também presidente da Câmara; era bisavô de João Gago da Câmara, um dos presos do 6 de Junho de 1975, que também presidiu aos destinos desta famosa Edilidade, ainda hoje, apesar de octogenário e, graças a Deus, entre nós, com larga geração.

Nesse tempo, a nossa doca "já" tinha conseguido 544 metros de comprimento, mercê dos esforços de José do Canto e dos heróicos micaelenses, contra tudo e contra todos que nada se conseguiu nesta terra sem luta.

Estou imaginando o velho titular, nessa altura com 64 anos, saindo do seu belo palácio, hoje Escola Antero de Quental, no carro de cavalos com o brasão da sua casa pintado na portinhola do coche, o cocheiro de chicote em riste, com o trintanário a seu lado, na boleia, nervoso e pronto a desdobrar o degrau de ferro para sua excelência se descer sem sobressalto, da viatura. O porteiro da Câmara solicito e empertigado na sua farda verde de botões dourados, curvando-se perante o magistrado municipal e abrindo o cortejo que sobe pausadamente a escadaria dos Paços do Concelho perante o olhar espantado dos inúmeros basbaques postados em frente do Paço e desemboca solene nesta mesma sala das sessões, de tochas acesas e janelas abertas que o Verão ia alto e quente. – "Está aberta a sessão, em nome do Barão da Fonte Bela, excelentíssimo senhor Amâncio da Silveira Gago da Câmara e a ordem do dia é a instalação duma associação de voluntários Bombeiros nesta nossa grande cidade". Sua excelência aceitara presidir à nova instituição, na sequência do convite que lhe foi dirigido pelos cavalheiros que tomaram a benemérita iniciativa e que a Senhora Câmara aprovou por unanimidade, disponibilizando esta sala para as primeiras reuniões. Presentes também os vice-presidente Manuel Joaquim Tavares, o secretário da Câmara, Pedro Paulo Santos, Guilherme Rangel, Manuel Sequeira (chefe de Polícia Municipal), António José de Viveiros, Agostinho Pereira de Medeiros e Inácio Ribeiro Alves, Inspector de Incêndios. Logo depois se associariam nomes sonantes da sociedade local, como o Conde da Silvã, D. Francisco, o Visconde do Porto Formoso, também avô do Presidente João Gago da Câmara, Ernesto do Canto, o próprio filho do Barão, o Barãozinho Jacinto que morreria muito novo. Atrás deles veio toda a gente de bem que graças a Deus era muita, na sociedade novecentista micaelense, de quem me permito destacar esse gigante da nossa benemerência, nascido na Rua do Saco e morador na Rua do Melo, Alfredo da Câmara que haveria de nos empolgar como povo, à volta do ideal humanitário, durante toda a sua vida, arrastando multidões para a celebração do 1.º de Maio, em vista a melhorar as desgraçadas condições de trabalho e de vida das nossas classes mais necessitadas, ou nos cortejos ou bandos precatórios que fazia percorrer a cidade para angariar fundos para as miseráveis viúvas dos nossos pescadores mortos em naufrágios que ele sentava cobertas de luto, em barcos incorporados no cortejo cívico, rodando ao som dolente, compassado e triste de tambores, ou para as meninas do Asilo a quem proporcionou dotes ou para os velhinhos do outro Asilo para quem organizou passeios e festas numa época tão longe do que hoje nos parece ser inovação. Promoveu espectáculos teatrais para recolher fundos para afastar a miséria dos nossos pobres, servindo os bombeiros mais talentosos de actores, em bem escolhidos dramas. Protegeu órfãos, viúvas velhos e pobres!

Fundou o jornal O Repórter para defender os seus ideais e para divulgar as questões ligadas aos Bombeiro. Fundou a Associação Autonómica Micaelense de que foi grande impulsionador. Como ajudou tanto quanto pôde, a escola nocturna de ensino primário e ginástica criada pelos Bombeiros, proporcionando as luzes da cultura a quem esta era negada por desmazelo e ocultas razões, numa época de analfabetismo generalizado e anquilosante.

Antigamente havia duas organizações de Bombeiros: os municipais que dependiam da Câmara a cujos quadros pertenciam e os Voluntários que pertenciam a si próprios e ao seu altruísmo. Quando havia um incêndio, tocado o alarme nos sinos da torre da matriz, com 10 badaladas para fogo em S. Pedro, 11 em S. José e 9 na da Matriz de S. Sebastião, primeiro chegavam os Voluntários, a seguir os Municipais, depois chegavam os Carros de Combate ao incêndio e, só passado algum tempo, chegava a água, fechada a sete chaves como bem precioso que era. Só que, às vezes chegava tarde de mais…

Vistos estes inconvenientes, um ano depois de cá terem estado os Reis de Portugal, fundiram-se as duas corporações na actual, tendo vencido os Voluntários na luta surda pela sobrevivência dos melhores mas subordinando-se aos grandes princípios éticos, fundamento de toda a sua acção: Honra, Heroísmo e Filantropia.

Hoje, observando as magníficas instalações que Albano Neto de Viveiros e a sua equipa conseguiram edificar, e os instrumentos de combate postos à nossa ordem, num sábio aproveitamento dos abundantes meios humanos e materiais de que miraculosamente dispomos, não se faz uma pálida ideia do que foram os instrumentos de trabalho dos nossos antepassados que por aqui passaram.

O nosso primeiro Quartel foi na Rua do Gaspar, hoje rua Dr. Bruno Carreiro, inaugurado com pompa e circunstância, em longo cortejo de homens e material da Praça do Município pela rua dos Mercadores, Largo de Camões, Travessa da Graça, Ruas de S. João, João Moreira, Stº. André, Conde, Canada, Theatro (hoje, Marquês da Praia), S. Braz e Gaspar, tudo acompanhado pelas boas marchas triunfais da Rival das Musas. O Barão, o Dr. Pereira Ataíde que se incorporaram no cortejo, botaram discurso no novo Salão, onde Filomeno Bicudo e Araão Cohen declamaram poesia, e a Rival executou música apropriada. Foi isto em 1881, reinava serenamente o senhor rei D. Luís I e já roncavam nos subterrâneos da nossa terra os primeiros rugidos do autonomismo libertador.

Nove anos depois, mudaram-se os Bombeiros de armas e bagagens para a Rua do Aljube, aí onde tinha funcionado a cadeia religiosa que albergara durante séculos os que da religião tinham uma visão pouco ou nada ortodoxa. Ali funcionariam as aulas de instrução primária e de ginástica para quem quis e pôde.

Correram mais doze anos e foi então que os nossos Bombeiros se mudaram para o velho Teatro de S. Sebastião na velha Rua da Louça, hoje chamada de Manuel da Ponte, em memória do grande autonomista, pedagogo e republicano. A casa era dos descendentes do Morgado José Caetano e nessa família se manteve o edifício até há pouco tempo. Aí puseram os soldados da paz a funcionar um salão de cinema, invenção revolucionária. E foi neste salão de cinematógrafo que se dançou o primeiro tango Argentino nesta ilha, a nova dança esperada com "ansiedade"! Executada pelo professor Manuel Joaquim de Matos e pela sua aluna Arménia Casanova. Um sucesso. Isto tudo de mistura com a Tuna dos empregados comerciais e um quinteto Vitaliani, com fados e concerto de piano e as inevitáveis poesias tudo muito aplaudido e apreciado.

Foi desse edifício já degenerado em pardieiro quando tomei posse como presidente em 1972 que comecei numa luta sem quartel para lhes dar novo quartel e consegui, apesar das inúmeras dificuldades que tivemos de enfrentar numa instituição deste género que dispunha então de apenas uma viatura que, para subir a rua Joaquim Nunes da Silva, tinha de ser rebocada por um tractor! E com todo o restante material obsoleto e quase inútil. Ilídio Rodrigues disciplinou e treinou o pessoal e nós arrebanhámos duas viaturas novas do BPI e do Grupo Bensaúde ao passo que erguíamos a toda a força as paredes da nova casa com a empresa de Mestre Manuel Soares e a orientação técnica desse humilde gigante engenheiro João Gilberto de Medeiros. Mas estou eu a falar de mim, esquecendo-me que elogio em boca própria é vitupério. Os outros que digam antes que estrague a festa. Quando estava tudo quase pronto, veio o 6 de Junho de 1975 e a minha prisão pelo que foi o meu carcereiro para minha amargura quem presidiu à inauguração do nosso trabalho, em sessão soleníssima, a que tive de assistir a seu lado, para mal dos meus pecados que até a caneta ele me emprestou pois a minha, na hora de trabalhar, recusou-se, sabe Deus por quê!

Julgava eu ter descoberto o caminho marítimo para a felicidade dos Bombeiros no que diz respeito a meios materiais e, eis senão quando, vem a Europa e os seus milhões e o Albano Neto de Viveiros que os agarrou fazendo uma obra única no País e quase única na Europa. Esta coisa de ser o primeiro, acreditem, não é fácil! Claro que nem ele nem eu trabalhámos sozinho. A minha companhia foi o Padre Zacarias, o Sr. Tibério Barbeiro, o Sr. José Francisco, secretário judicial, João Gualberto Arruda e os comandantes Ilídio Rodrigues, herói da Guiné e Álvaro Lemos que foi herói lá e cá, pois à sua devoção devemos todo o período áureo da corporação.

Os Companheiros do Albano foram Clarimundo Brandão e Ferreira de Almeida que sem eles não se teria conseguido coisa tão boa. A cereja em cima do bolo foi a bela estátua de Álvaro França, esse micaelense escultor e mestre de escultores, obra que eu tinha sonhado para uma das praças da nossa cidade com a efígie de Alfredo da Câmara. Valha a intenção que a Câmara de então, quiçá envolvida em complexos duma falsa direita, não deixou.

Hoje, Vasco Garcia e os seus colaboradores, gerem uma máquina complexa, pesada, difícil e eficiente. Graças a Deus que estão ao leme, pois doutro modo não seria fácil conseguir os resultados espantosos até agora obtidos em que a segurança inspirada é total.

Consola-me a lembrança de que a disciplina de hoje é herdeira do desejo dos fundadores da corporação, em que os aos bombeiros era vedado andar em brigas e desordens nunca podendo aparecer embriagados com farda sob pena de expulsão imediata, sem apelo nem agravo. Consola-me saber que meu querido e saudoso Pai, formado nas fileiras do glorioso exército português ainda que como oficial miliciano, impôs, inspirado na velha instituição castrense, uma disciplina férrea que pode tê-lo tornado pouco simpático mas o seu ensinamento perdura no ânimo dos que servem pois que sem essa disciplina não há ordem mas o caos que impede toda a obra útil.

Não disse tudo (nem nunca ninguém o dirá) sobre a história destes nossos heróis mas gostaria ainda de vos referir que aos Bombeiros também se ficou devendo durante décadas, o socorro a náufragos e a criação do Clube Naval hoje tão prestigiado e afamado.

No auge da campanha autonómica de 1893/95, António San-Bento que guardava os aprestos de socorro a náufragos numa arcada da Praça do Município por ele arrendada, junto ao Cais da cidade, pediu ajuda à Câmara. Aí ou no Cais da Sardinha ao Corpo Santo ou no Campo de S. Francisco, funcionou por vez primeira o Club Sport Náutico, avô do actual, com bóias, foguetes de lançamento de cabos e todos os outros aprestos com que salvaram centenas de vidas nacionais e estrangeiras e por tantos foram louvados e agraciados. Os sinos de alarme tocavam 7 vezes para chamar os socorristas ou não fosse esse número cabalístico tão da predilecção dos homens dos sete mares e dos sete ventos!

E não vou dizer mais que hoje é dia de festa. A todos os que se sacrificam todos os dias por nós muito e muito obrigado e muitos parabéns por manterem vivo e em bom estado, o ideal romântico de Vida por Vida que nada há de mais sagrado nem de mais agradável neste mundo.



Carlos Melo Bento

- Título da responsabilidade da Coordenação
- Foto: Correio dos Açores
- Agradecemos a colaboração prestada por Carlos Pinheiro

Efeméride


História e fotos inéditas da Rainha do Fado
AMÁLIA SOLIDÁRIA COM OS BOMBEIROS DO PESO DA RÉGUA


Dois registos da atenção dispensada a Amália Rodrigues pelas gentes locais, na noite de 23 de Julho de 1966



Texto: Luís Miguel Baptista/José Alfredo Almeida

No dia em que se completam 10 anos sobre a morte da mítica Amália Rodrigues, Fogo e História recorda uma faceta da fadista, certamente, desconhecida, que é digna de registo e merecedora de constar na história dos bombeiros de Portugal, em geral, e dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, em particular.
Imortalizada pelo seu talento artístico mas também pela sua dimensão humana, nos anos 60, "a maior de todas as divas" deixou os grandes palcos da fama e, com singeleza, rumou ao Peso da Régua para expressar o portuguesíssimo "obrigado" aos bombeiros locais.

Sábado, 23 de Julho de 1966, 23.30 horas: Amália Rodrigues (1920-1999), no auge da sua carreira, subiu ao palco do Cine-Teatro Avenida, em Peso da Régua, como principal atracção de um espectáculo de beneficência a favor da Santa Casa da Misericórdia e da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários.
A sala esteve repleta de público, fãs incondicionais da artista, para quem interpretou os seus grandes fados e cantigas do folclore português, tais como "Vou Dar De Beber À Dor" e "Barco Negro", recebendo fortes aplausos.
A Rainha do Fado fez questão de se deslocar à Régua para exteriorizar o seu agradecimento aos bombeiros que, tempos antes, haviam prestado socorro ao seu marido, ferido num grave acidente de viação.
O convite à fadista partiu da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, na pessoa de Noel de Magalhães, a um amigo íntimo da artista, Francisco dos Santos Lopes (padrinho do casamento), que residia numa quinta no Douro, em S. João da Pesqueira, o qual estabeleceu os contactos e tratou da sua viagem e estadia.
A primeira parte do inédito espectáculo, apresentado pelo locutor Carlos Ruela, da extinta Rádio Alto Douro, teve a participação do conjunto reguense "Revelações", orientado pelo professor José Armindo, que então fazia sucesso entre o público.


Recepção nos Paços do Concelho


Segundo notícia publicada no jornal Vida por Vida, Amália "foi recebida com grandes honras e finalmente obsequiada com uma ceia volante no Salão Nobre da Corporação" e adianta que "em todos os momentos irradiou simpatia", facto do qual, aliás, dão testemunho as fotografias inéditas que publicamos.
Através da mesma notícia, sabe-se ainda que "pela palavra fluente do Sr. Joaquim Augusto Rodrigues, Amália Rodrigues ouviu um justo e sincero agradecimento das duas instituições contempladas", pois o espectáculo "possibilitou a arrecadação de mais de doze mil escudos".
Uma memória curiosa de quem ficou também conhecida como "Amália: uma estranha forma de vida", cujo significado está associado às palavras, um dia, proferidas pela própria: "(…) nunca cantei a enganar ninguém, fazendo uma coisa agora aqui forçada. Sou uma pessoa autêntica (…)".

Retratos

Da Pneumónica à Gripe A
MEMÓRIAS DE UM SERVIÇO DE SAÚDE



Elementos dos BVPR junto a nova ambulância (1968)



Texto: José Alfredo Almeida*

Em 3 de Março 1968, os Bombeiros Voluntários do Peso da Régua (BVPR) recebiam uma nova ambulância Mercedes Benz, modelo 220 D, para melhoraria do seu modesto serviço de transporte de doentes, à qual foi dado o nome de "Nossa Senhora da Conceição", em homenagem a D. Sílvia Ferreira, grande benemérita da instituição.
Nessa data, o corpo de bombeiros dispunha, apenas, em actividade regular, de uma velha ambulância.
Tal veículo já não satisfazia as exigências de um serviço quase permanente e do aumento extraordinário da população, motivado pela fixação, na cidade, de muitos trabalhadores (e suas famílias), contratados para a construção da Barragem de Bagaúste, no rio Douro.
A cerimónia da bênção e baptismo da nova ambulância decorreu no Largo da Igreja Matriz. Procedeu ao acto litúrgico o reverendo Avelino Branco, pároco local. Além de muito público, esteve presente o Corpo Activo, o comandante Carlos Cardoso dos Santos e a Direcção. A madrinha da viatura foi D. Margarida da Glória Mesquita e Costa Vieira de Castro, esposa do presidente da Direcção, o médico Dr. José Lopes Vieira de Castro (1968-1969), que os sócios haviam escolhido em acto eleitoral muito participado – e conturbado – no qual foi derrotada uma lista alternativa liderada pelo Dr. Fernando Bandeira.
No final, a nova viatura e as demais existentes nos BVPR desfilaram pelas ruas da cidade até às Caldas do Moledo. Assim, pretenderam os bombeiros agradecer a generosa contribuição da população para a compra da moderna unidade móvel, avaliada em 200 contos, valor incomportável para a associação, na sua totalidade, devido à limitação de recursos financeiros.



Frota automóvel dos BVPR que participou no desfile



Ambulância com história
aguarda recuperação


A ambulância em causa deixou de prestar serviço há muitos anos e não teve a sorte de alguém a ter reservado como peça de museu.
Outro destino teve a velha ambulância Mercedes Benz, modelo 180 D, adquirida em 1958 pela Direcção sob a presidência do Dr. Júlio Vilela, que depois de abatida e apesar de degradada continuou a fazer parte do património da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua. Considerada peça rara, de momento aguarda recuperação total. Tinha uma célula sanitária muito elementar constituída por duas macas, uma delas desmontável. O seu principal objectivo era o transporte, ao contrário do que acontece com as ambulâncias dos nossos dias, dotadas de equipamentos para os mais variados fins de assistência. Por exemplo, se solicitado o seu serviço para uma transferência de hospital, era assegurada a colocação de soro e oxigénio, situação para a qual estava preparada. Dado que o estrado da maca é amovível e abre o encosto do banco traseiro, permitia, também, caso fosse necessário, transformar-se rapidamente em transporte de pessoal, com capacidade para sete bombeiros e algum material.
Quanto à primeira ambulância que existiu no corpo de bombeiros, sabemos pelas memórias escritas de António Guedes (nascido em 1894), antigo chefe, que era uma viatura marca Rolly-Pillan, cujo chassis foi oferecido pelo benemérito José Vasques Osório. Quem chegou a vê-la circular, descreve-a como sendo "uma caranguejola esquinuda, de um branco duvidoso e conforto ainda mais duvidoso".



Veículos anteriores a 1968, vendo-se ao centro uma ambulância



Vinho do Porto
como medida preventiva


Actualmente os BVPR dispõem de nove ambulâncias para o serviço de transporte de doentes ao nível de Suporte Básico de Vida, número considerado suficiente para responder às actuais necessidades da população do concelho, mesmo em situações mais complexas, caso da primeira pandemia de gripe do século XXI que, desde Maio último, aumenta o número de pessoas afectadas pelo vírus H1N1.
Lembramos que no início do século passado, mais precisamente na Primavera de 1918, aquando da pandemia de Gripe Espanhola, também conhecida por Pneumónica, os bombeiros da Régua desempenharam um papel importante no apoio sanitário aos infectados. Quando esta se "manifestou na vila e nas imediações, a corporação dos bombeiros instalou postos de socorro e um hospital apropriado para o qual ela conduzia, nas suas macas, as pessoas atingidas pela epidemia", relata, numa carta de 30 de Agosto de 1928, o sócio fundador Gaspar Henriques da Silva Monteiro, ao tempo presidente da Comissão Administrativa do concelho do Peso da Régua.
Outro testemunho, respeitante a António Guedes, antigo bombeiro, publicado no jornal O Arrais, de 20 de Junho de 1978, num artigo intitulado "Bombeiros Voluntários: Recordações", descreve como ele e outros bombeiros viveram, sem alarmismos, os momentos mais críticos deste nefasto acontecimento:


"Mais tarde, quando da pneumónica, montamos um improvisado hospital na casa onde hoje está o Asilo Vasques Osório, o qual ficou sob a direcção do médico da nossa Corporação, Sr. Dr. Luís António de Sousa.
Ainda não existiam ambulâncias na Corporação, e éramos nós bombeiros, que com macas portáteis, íamos buscar os doentes a suas casas e os transportávamos para o hospital.
Há que frisar o facto de nenhum de nós se ter contagiado com aquela terrível doença, certamente devido à desinfecção a que éramos sujeitos, sempre que chegávamos com qualquer doente.
E recordo-me muito bem que, dessa desinfecção, constava um 'medicamento', um 'antibiótico' muito agradável, que era o Vinho do Porto. O primeiro gole seria para bochechar e deitar fora e o restante conteúdo do cálice (bem grande, por sinal) era para ingerir.
E de todos esses homens da velha guarda resto eu apenas, ralado de saudades pelo falta daqueles bons companheiros, os quais com o meu pequeno contributo, conseguiram conquistar a auréola, a fama de eficiência e valentia que ainda hoje enaltecem os Voluntários da Régua."


Desconhecemos quantas pessoas a Pneumónica vitimou no concelho do Peso da Régua, mas sabe-se que, de Norte a Sul do país, terá implicado perto de 150 mil casos mortais.
Eram tempos de alguma improvisação em que os bombeiros não tinham, como hoje, preparados os planos de contingência.
A ser verdade – e não temos razões para duvidar – os efeitos do Vinho do Porto, como poderoso desinfectante, talvez pelo seu teor alcoólico, terá resultado em 1918 como uma boa medida de prevenção ao vírus da gripe!



*Presidente da Direcção da AHBV Peso da Régua

Histórias da História


In memoriam
RAUL SOLNADO, "O BOMBEIRO VOLUNTÁRIO"


Reconhecido pelo seu enorme talento mas também pela sua "grande humanidade", o actor Raul Solnado (1929-2009) actuou, em 1968, na festa comemorativa do 18.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses e do 1.º Centenário da Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, realizada a 19 de Outubro, no Pavilhão dos Desportos, actual Pavilhão Carlos Lopes.
Então no auge da sua carreira, foi a primeira das atracções. Entrou em cena, transportado num jeep, de capacete metálico amarelo. E, desde logo, fez soltar gargalhada geral da assistência, pois, num gesto cómico, soprando um fósforo, dirigiu-se ao público e afirmou: "Já sou bombeiro". Estava feito o seu "baptismo de fogo".
O Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses, referente a Novembro-Dezembro de 1968, recorda a respeito do evento que "todos os artistas convidados nenhum recusou e muitos se ofereceram". Raul Solnado foi um deles.
Na imagem que apresentamos, a capa do disco "A Bombeiral da Moda" (1964), Solnado utiliza um capacete dos Bombeiros Voluntários de Lisboa.
A par do popular monólogo "A Guerra de 1908", "O Bombeiro Voluntário" fica para a história como um dos principais êxitos gravados em disco pela figura mítica do espectáculo.
Raul Solnado estreou-se como actor amador no ano de 1947, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, nome marcante da história dos bombeiros portugueses, pioneiro do voluntariado nos bombeiros em Portugal, também ele homem de cultura e do espectáculo.

Artes





Os oito desenhos que apresentamos serviram de ilustração à revista "Rescaldo", em tempos editada pela Federação dos Bombeiros do Distrito de Braga.
Da autoria de J. Veiga, destinavam-se a identificar cada uma das secções da publicação.
Trata-se de um interessante e bastante original conjunto pictórico, no qual o autor faz uma abordagem abrangente da actividade dos bombeiros, com um certo humor à mistura.
De referir, ainda, a invulgaridade do recurso a tal tipo de desenhos em revistas do sector, o que faz de cada número de "Rescaldo" um documento de duplo valor: histórico e artístico.